Agora que os governos, perdão, as empresas estão a apostar em força no carro eléctrico, deu-se uma ressurreição que não podia ser mais eloquente: a do Trabant. O Trabant eléctrico é mais uma prova de que, com os subsídios certos, uma má ideia pode sempre ser piorada. Espero que o Governo esteja de olho nisto. Se a parceria público-privada global em nome do ambiente consegue fazer renascer das cinzas o que é para muita gente o pior carro alguma vez produzido, tenho a certeza de que com o Sado eléctrico, o futuro será nosso. Parafraseando o Eng.º José Sócrates, não podemos cometer o erro de não fazer nada.
A teoria económia de comércio internacional tem duas ramificações importantes actualmente.
A primeira (e mais antiga) sugere que há vantagens comparativas entre os países, que será daí que surgirá a afectação dos recursos e meios de produção. (que tipo de produtos a exportar, de produção de capital intensivo ou mão-de-obra intensivo...)
A segunda segue a perspectiva das economias de escala, onde não havendo padrão de trocas pré-definido por vantagens comparativas, há a ideia de que poder-se-á melhorar a riqueza em relação a uma situação de autarcia através do aumento da produção de um determinado bem em que o custo de produção é mais que proporcionalmente decrescente.
Há portanto, duas correntes diferentes que sugerem que há ganhos em sair de uma situação de autarcia e abrir ao comércio internacional (com ou sem barreiras).
No primeiro caso, mais liberal, que começou em David Ricardo, os ganhos baseiam-se nas diferenças relativas de meios de produção, avanços tecnológicos e dimensão das economias.
No segundo caso, ainda assim também liberal, apresentado pelo agora Nobel, Paul Krugman (que curiosamente não é propriamente conhecido pelas suas posições a favor do capitalismo no seu estado mais puro... ), defende que é através das economias de escala e na diferenciação que os ganhos no comércio internacional podem surgir. Em nenhum caso sugere o proteccionismo como solução.
O proteccionismo é como a ilusão monetária (ou qualquer substância alucinogénica), tem um efeito positivo curto prazo e perverso (e muito negativo) no longo. Dá ilusão de riqueza interna, quando de facto há empobrecimento relativo ao exterior (compra-se os bens mais caros que seria possível e há gastos públicos para subsidiar a produção, o que provoca desvalorização da moeda e/ou perda de competitividade). Há uma afectação sub-optima dos recursos. E, por último, há a retaliação do exterior, o que no caso de uma pequena economia (supostamente) aberta como a nossa seria devastador para a produção interna.
A balança comercial ser deficitária, per se, não é um problema; a incapacidade de ser competitivo sim... Ou seja, o problema está essencialmente em Portugal não conseguir ser competitivo, e isto não se resolve com subsídios, resolve-se com políticas de incentivos abrangentes que premeiem os melhores e acabe com os ineficientes.
São assim os socialistas. Confundem externalidades negativas com subsídios, procura com oferta. É natural, para quem olha para a economia como uma variável controlável e controlada do Estado.
One has only to examine matters closely to be convinced that this is what the sophism I am combatting amounts to. Do what you will, gentlemen; you cannot give money to some without taking it away from others. If you absolutely insist on draining the taxpayer dry, well and good; but at least do not treat him like a fool. Do not tell him: "I am taking this money from you to repay you for what I have already taken from you."
Frédéric Bastiat
Continuando a resposta ao Hugo Mendes:
Ao contrário do que o Hugo diz, não "há n casos em que só apoio público permite sair de situações que são caracterizadas por uma armadilha". Há n casos em que o poder político acha que deve intervir para seu próprio benefício. Mais uma vez, o caso das renováveis é, como diz o Hugo, "claríssimo". Das quatro grandes soluções para tentar resolver o problema das emissões (subsídios, regulação, sistemas de "cap and trade" e impostos sobre as emissões) o governo optou pelas que envolvem maior discricionariedade do poder político em detrimento da eficiência económica. Como disse aqui e aqui e também em resposta ao João Galamba, a tomar alguma medida, o governo devia ter optado pelos impostos sobre o carbono, que facilitariam simultaneamente a inovação tecnológica, obrigariam a verdadeiras alterações de comportamento pela via da internalização dos tais custos sociais, e não implicariam penalizações desnecessárias para o país. Curiosamente, não o fez. Como é que isso se explica?
Em relação a recomendações de leitura, eu contraponho o seu Dani Rodrik com um William Easterly no seu "The Elusive Quest for Growth", onde ele demonstra com clareza que os Estados, ao contrário que o Hugo diz, não aprendem. Cometem os mesmo erros que cometeram no passado, vezes sem conta. Se o próprio Hugo admite que as políticas industriais só funcionam em certas condições, porque razão o Estado não garante primeiro essas condições e só depois equaciona políticas activas?
Só para acabar, é óbvio que o governo não tem direito ao dinheiro que cobra através dos impostos. O Estado não tem direitos, só deveres.
Este é um normalíssimo e muito simples gráfico de S e D (oferta e procura) que se aprende nas primeiras cadeiras de economia:
Fonte: ingrimayne.com
Sem querer tirar a ansiedade de muitos de vocês para descodificar o gráfico e argumentar para um ou outro lado, vou só relatar a evolução dinâmica espelhada na figura.
No primeiro momento ("old price" e "old quantity"), a oferta e procura encontram-se livremente. As quantidades produzidas são as que optimizam a afectação eficiente de recursos da economia.
Depois aparece o subsídio, que artificialmente desvia paralelamente a curva de oferta para baixo, o que implica que: 1) o consumidor pense que o preço está no óptimo de oferta e procura, e portanto, está disposto a comprar mais, dada a nova curva de oferta; 2) o produtor considere a sua curva de oferta no mesmo nível (para alguma coisa obteve o subsídio...), e portanto, dada a nova quantidade que os consumidores estão dispostos a consumir ("new quantity"), consideram que o preço está em acima do inicial ("price sellers see").
Resultado: os produtores aumentam a produção, mas como os consumidores vêem a nova curva de oferta, estão apenas dispostos a pagar um preço mais baixo. Parece excelente. Só há um problema. Os recursos da economia como um todo são escassos, e neste caso são esbanjados para melhorar artificialmente o preço de um bem, ou seja, há um custo para a economia como um todo. Há muitos outros bens (ou impostos) que vão ser negativamente afectados por esta distorção.
Este exemplo é para pão. Mas serve para pão, batatas, carros..ou electricidade.
Agora imaginem que para quase tudo havia subsídios (quão longe da verdade está esta afirmação!?). Quem paga o custo para a sociedade ? A sociedade! Ou seja, a única consequência do subsídio é a perda de eficiência e de competitividade...
(há em qualquer manual de economia, mas a título de exemplo para quem quiser ver mais em detalhe uma analise simples a este gráfico:
http://ingrimayne.com/econ/optional/effi
"Tenho o subsídio de reinserção social, já recebo uns trocos para fazer o 12º ano e agora ainda querem que eu tenha filhos se quiser receber mais algum: não tenho tempo para nada, quanto mais para ter filhos!"
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